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MATÉRIA PUBLICADA
DIA 25 DE JANEIRO DE 2008
Patrimônio
Cultural no Brasil
Os desafios da destruição e conservação do
patrimônio cultural no Brasil são,
provavelmente, pouco conhecidos do público acadêmico. Os
monumentos históricos
e os restos arqueológicos são importantes portadores de
mensagens e, por
sua própria natureza como cultura material, são usados pelos
atores sociais para
produzir significado, em especial ao materializar conceitos como identidade
nacional
e diferença étnica. Uma abordagem antropológica do
próprio patrimônio cultural
ajuda a desmascarar a manipulação do passado. A experiência
brasileira, a esse
respeito, é muito clara: a manipulação oficial do
passado, incluindo-se o gerenciamento
do patrimônio, é, de forma constante, reinterpretada pelo
povo.
A preservação dos edifícios de igrejas coloniais
poderia ser considerado como
o mais antigo manejo patrimonial. É interessante notar que a importância
da
Igreja Católica na colonização ibérica do
Novo Mundo explica a escolha estratégica
de se preservar esses edifícios, sejam templos construídos
sobre os restos
de estruturas indígenas, sejam as igrejas nas colinas que dominavam
a paisagem,
como foi o caso na América portuguesa. Contudo, nem mesmo as igrejas
foram bem preservadas no Brasil, com importantes exceções,
e isto pode ser
explicado pelo anseio das elites, nos últimos cem anos, de "progresso",
não por
acaso um dos dois termos na bandeira nacional surgida da Proclamação
da
República, em 1889, "ordem e progresso". Desde então,
o país tem buscado
a modernidade e qualquer edifício moderno é considerado
melhor do que um
antigo. Houve muitas razões para mudar-se a capital do Rio de Janeiro
para uma
cidade criada ex nouo, Brasília, em 1961, mas, quaisquer que tenham
sido os
motivos econômicos, sociais ou geopolíticos, apenas foi possível
porque havia um
estado d'alma favorável à modernidade. A melhor imagem da
sociedade brasileira
não deveria ser os edifícios históricos do Rio de
Janeiro, mas uma cidade
moderníssima e mesmo os mais humildes sertanejos deveriam preterir
seu patrimônio,
em benefício de uma cidade sem passado.
Mesmo em cidades coloniais, algumas delas bem conhecidas no exterior,
como
Ouro Preto, declarada Patrimônio da Humanidade, a modernidade está
sempre
presente, por desejo de seus habitantes. É fácil entender
que as pessoas estejam
interessadas em ter acesso à infra-estrutura moderna mas, como
notam os europeus
quando visitam as cidades coloniais, se os edifícios medievais
podem ser
completamente reaparelhados, sem danificar os prédios, não
haveria porque não
fazê-lo no Brasil. Outra ameaça ao patrimônio arqueológico
das cidades coloniais
é o roubo, já que os ladrões são muito atuantes,
havendo mais de quinhentas
igrejas e museus locais. Um problema mais prosaico é a deterioração
dos monumentos
devido à falta de manutenção e abrigo, mesmo no interior
de edifícios (Lira
1997; Sebastião 1998). Estes três perigos para a manutenção
dos bens culturais,
aparentemente não relacionados, revelam uma causa subjacente comum:
a alienação
da população, o divórcio entre o povo e as autoridades,
a distância que
separa as preocupações corriqueiras e o ethos e políticas
oficiais.
Para o povo, há, pois, um sentimento de alienação,
como se sua própria cultura
não fosse, de modo algum, relevante ou digna de atenção.
Tradicionalmente,
havia dois tipos de casa no Brasil: as moradas de dois ou mais andares,
chamados
de "sobrados", onde vivia a elite, e todas as outras formas
de habitação, como as
"casas" e "casebres", "mocambos" (derivado
do quimbundo, mukambu, "fileira"),
"senzalas" (locais da escravaria), "favelas". O resultado
de uma sociedade baseada
na escravidão, desde o início houve sempre dois grupos de
pessoas no país, os
poderosos, com sua cultura material esplendorosa, cuja memória
e monumentos
são dignos de reverência e preservação e os
vestígios esquálidos dos subalternos,
dignos de desdém e desprezo. A Catedral, freqüentada pela
"gente de bem",
deve ser preservada, enquanto a Igreja de São Benedito, dos "pretos
da terra", não
é protegida e é, com freqüência, abandonada.
Neste contexto, não é de surpreender que o povo não
preste muita atenção
à proteção cultural, sentida como se fora estrangeira,
não relacionada à sua
realidade. Há uma expressão no português do Brasil
que demonstra, com clareza,
esta alienação das classes: "eles, que são brancos,
que se entendam". Notese
que esta frase é usada também por brancos para se referirem
às autoridades
em geral. A mesma distância afeta o patrimônio, pois os edifícios
coloniais são
considerados como "problema deles, não nosso". Poderíamos
dizer, assim, que
a busca da modernidade, mesmo sem levar em conta a destruição
dos bens
culturais, poderia bem ser interpretada como um tipo de luta não
apenas por
melhores condições de vida, mas contra a própria
lembrança do sofrimento secular
dos subalternos.
O patrimônio arqueológico stricto sensu poderia deixar de
ser afetado por
esta falta de interesse na preservação da cultura material
da elite, na medida em
que a Arqueologia produz evidência de indígenas e dos humildes
em geral.
Entretanto, há muitos fatores que inibem um engajamento ativo da
gente comum
na proteção patrimonial. Em primeiro lugar, há falta
de informação e de educação
formal sobre o tema. Indígenas, africanos e pobres são raramente
mencionados
nas lições de História e, na maioria das vezes, as
poucas referências são negativas,
ao serem representados como preguiçosos, uma massa de servos atrasados
incapazes de alcançar a civilização. Os índios
eram considerados ferozes
inimigos, dominados por séculos e isso pleno iure. Em famoso debate,
no início
do século XX, Von Ihering, então diretor do Museu Paulista,
propôs o extermínio
dos índios Kaingangs que, segundo ele, estavam a atravancar o progresso
do
país e, mesmo que tenha sido desafiado por outros intelectuais,
principalmente
do Museu Nacional do Rio de Janeiro, sua atitude era e ainda é
muito sintomática
da baixa estima dos indígenas, mesmo na academia.
Por fim, mas não menos importante, há uma falta de comunicação
entre o
mundo acadêmico, em particular a comunidade arqueológica,
e o povo. Os arqueólogos
deveriam agir com a comunidade, não para ela, dando ao povo uma
melhor
compreensão do passado e do mundo. Para atingir esses objetivos,
pesquisas de
largo fôlego não deveriam levar à diversão,
mas à integração de processos, como
é o resgate de edifícios históricos e a escavação
de sítios arqueológicos, e produtos,
como a publicização do trabalho científico por meio
de diferentes media.
No Brasil, o cuidado do patrimônio sempre esteve a cargo da elite,
cujas
prioridades têm sido tanto míopes como ineficazes. Edifícios
de alto estilo arquitetônico,
protegidos por lei, são deixados nas mãos do mercado e o
comércio ilegal
de obras de arte é amplamente tolerado. A gente comum sente-se
alienada tanto
em relação ao patrimônio erudito quanto aos humildes
vestígios arqueológicos,
já que são ensinados a desprezar índios, negros,
mestiços, pobres, em outras
palavras, a si próprios e a seus antepassados. Neste contexto,
a tarefa acadêmica
a confrontar os arqueólogos e aqueles encarregados do patrimônio,
no
Brasil, é particularmente complexa e contraditória. Devemos
lutar para preservar
tanto o patrimônio erudito, como popular, a fim de democratizar
a informação e
a educação, em geral. Acima de tudo, devemos lutar para
que o povo assuma
seu destino, para que tenha acesso ao conhecimento, para que possamos
trabalhar, como acadêmicos e como cidadãos, com o povo e
em seu interesse.
(Fonte/ Pesquisa: Site Vitruvius)
Rita Von Ah - Arquiteta e Urbanista

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