MATÉRIA PUBLICADA DIA 22 DE FEVEREIRO DE 2008

PAMONHA “JUST IN TIME”

Todo sábado pela manhã, quando estamos em casa, compramos pamonha e bolo de milho de um Sr. que mora em Indaiatuba. O seu trabalho anterior era em uma empresa da cidade, que produz implementos para agricultura. Ele me contou que produzia peças sem parar, se existiam clientes, muito bem, se não existiam iam parar no estoque para utilização futura. Os estoques eram sempre altos e, às vezes, suficientes para vários meses de vendas.
Quando iniciou seu pequeno negócio, também produzia em excesso e acima do que conseguia vender, para quem conhece este tipo de produto sabe que a pamonha azeda muito fácil. Era muito comum perder estoque no final do dia.
Hoje produz três vezes na semana e sai distribuindo, principalmente para a sua clientela já formada, se aparecer novos clientes na trajetória, adapta sua produção para tal quantidade.
Para as pessoas que faziam compras em supermercados nas décadas de 70 e 80, este desperdício em estoque é muito conhecido. Quantas vezes, vimos famílias com 2 ou 3 carrinhos de compras na passagem das caixas dos supermercados. Muitos destes produtos iam simplesmente para o lixo, às vezes, dentro da própria embalagem sem nem mesmo ter sido aberto.
Quando trabalhei em uma grande empresa automobilística, também vivi esta fase de desperdícios. Os estoques de peças e veículos prontos eram enormes. Na época de “baixa estação” faltavam áreas para estoca- los, às vezes, os veículos prontos tinham que viajar mais de 100 km da área de produção para chegar ao local do estoque.
Muitos divulgavam que estoque era aplicação financeira, valia mais aplicar em estoque do que em bancos. Até hoje este conceito é utilizado em algumas empresas.
O sistema “Just in Time” (na hora certa) foi desenvolvido pelo japonês chamado “Ohno” para coordenar o fluxo de peças do sistema de suprimentos, utilizando um sistema de cartões ou containers numa empresa automobilística. A idéia era simples, ele determinou que a produção das peças se restringia a cada etapa subsequente.
Apesar de uma idéia muito simples, a sua aplicação prática é difícil; se houver um erro em qualquer etapa, a produção toda é paralisada. Em sua opinião este era o ponto forte do sistema, obrigava a prevenção de falhas no processo, justamente para a produção não ser paralisada. Demorou anos para aperfeiçoar este sistema.
Quando temos um estoque em excesso, não podemos esquecer que temos capital investido ali e que poderíamos usar para alavancar novos negócios para a empresa, temos custo do manuseio, necessitamos de área, alguns tipos de produtos perdem validade, danos no manuseio, perda de utilidade, custos de impostos e de seguros, etc.
Na indústria da construção civil um exemplo clássico que precisamos prestar muita atenção, é perecível, pode rasgar a embalagem, se molhar perde características, é o cimento. Um outro é a areia que pode ser contaminada com outras areias ou produtos, ser levada pela chuva, etc. Estes dois exemplos simples podem ser transportados para todos os outros produtos.

Este sistema para ser aplicado exige confiabilidade de produção, de entrega, de parcerias reais (não de fachada), ética; é uma filosofia.
Às vezes, precisamos alterar vários processos administrativos e técnicos dentro e fora da empresa.

Apesar do Japão ter iniciado a sua escalada na área automobilística, nos anos 50 para o mercado interno, a partir dos anos 70, para o mundo e conhecermos este sistema no Brasil, desde a crise de 80, onde milhares de pessoas perderam seus empregos, e um dos causadores desta crise foi sem dúvida o excesso de estoque, a maioria das empresas ainda não conseguiu aplicar um sistema igual ou similar.
As desculpas para não aplicar um sistema semelhante, são intermináveis, passam desde a qualidade de mão de obra, máquinas ultrapassadas, distância entre fornecedores, condições de transportes, condições das estradas, falta de ética nos negócios, cultura da empresa, etc.
Existem algumas empresas que obtiveram bons resultados com sua aplicação, o que demonstra também a sua viabilidade no nosso país.
Na minha conversa rápida com o pamonheiro, notei que já aprendeu e aplicou o sistema “Just in Time”, a pamonha não mais azeda.


Paulo Gonçalves dos Santos
Engenheiro de Planejamento

 

 

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