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MATÉRIA PUBLICADA
DIA 01 DE FEVEREIRO DE 2008
A
HISTÓRIA DA ENERGIA NA VISÃO DE UM ADVOGADO
Este advogado foi um grande defensor da produção de petróleo
e do aço no Brasil. Um dos seus objetivos principais era tornar
o Brasil auto-suficiente em petróleo e aço. Conforme o mesmo,
companhias
petrolíferas internacionais inglesas e americanas subornavam os
departamentos setoriais nacionais, a fim de convencer o povo brasileiro
que aqui não existia petróleo e nem aço. Ele não
entendia porque os Estados Unidos e Brasil, descobertos no mesmo ciclo,
povoados com os mesmos elementos (europeu, índio
e negro), libertados politicamente quase na mesma época, com territórios
equivalentes, um
se tornou o país mais poderoso do mundo e o outro permaneceu atrofiado.
Pela sua luta, criou muitas inimizades no governo do chamado estado-novo,
perdeu muito dinheiro, foi preso na era Getulio Vargas.
O texto abaixo é de sua autoria e editado pela primeira vez em
1936. "A eficiência do homem natural, que só dispõe
dos músculos, é mínima. Ele pode o que os seus músculos
podem. Começa a crescer a eficiência
à medida que se vai se equipando de instrumentos multiplicadores
da força dos músculos...... Com o machado de Silex corta
a árvore que jamais poderia abater a pulso nu. Os elementos multiplicadores
da eficiência do homem vão crescendo em complicação
até se transformarem no que chamamos máquina. A máquina
número um, a máquina mater, surgiu com a alavanca e um pedaço
de pau não flexível que formado num ponto de apoio nos permite
levantar pesos. Não foi invenção humana. Apenas descobriu
o meio
de utilizá-la. Mas a roda foi invenção sua. Da combinação
da roda e da alavanca surgiu o veículo,
a máquina de transportar, e foram vindo todas as máquinas
existentes no mundo. Que é máquina? Um meio engenhoso de
multiplicar a eficiência do músculo humano. Mas a máquina
é inerte. Tem que ser movida. Exige uma pressão. E o homem
dava pressão à máquina com seus músculos.
Depois concebeu a luminosa idéia de escravizar os músculos
de seres menos inteligentes, os mais fracos, para pô-los a mover
a
máquina. Daí a domesticação do boi e do cavalo.
Mais astucioso, o homem transferiu para os músculos desses seus
irmãos a tarefa de puxar carros e mover as moendas. Outra idéia
luminosa surge: escravizar o próprio homem. Roma propulsionava
as suas galeras e movia seus moinhos por meio dos escravos feitos nas
guerras. A escravização do boi, do cavalo e do homem permitiu
ao mundo um progresso imenso, porque significava a descoberta de uma fonte
de energia capaz de mover a máquina. E como a máquina é
um sistema rígido, a matéria prima da máquina tinha
de ser, não a madeira primitivamente empregada, mas um material
de maior rigidez e durabilidade. Qual? O ferro. O homem aprende a derreter
certas rochas que encontra na superfície do solo e a extrair uma
coisa chamada ferro. Material maravilhoso, de extrema rigidez e durabilidade
e desde então a matéria prima da máquina ficou sendo
o ferro. A partir daí o astuto bípede
começa a dominar o mundo, a arrostar as leis naturais, a tirar
dum ponto o que a natureza pusera noutro, a rir-se de animalões
enormes como o elefante e a governar a terra como propriedade sua.
Deu de "civilizar-se", isto é, de sobrepor às
leis naturais uma lei nova saída da sua cabeça, e quanto
mais aperfeiçoava a máquina, mais aumentava a eficiência
e pois, mais se "civilizava". Mas seu "progresso"
(que é como ele chama a velocidade de seu "civilizamento")
via-se embaraçado pela pobreza da força que dispunha
para mover a máquina. Era preciso descobrir algo indolor e potente
que substituísse o músculo - e surge afinal o aproveitamento
da enorme fonte de energia mecânica que existe na força expansiva
do vapor d'água Maravilha! Aquela coisa tão simples - água
aquecida até transformar-
se em vapor - vem libertar o músculo dolorido como força
motora da máquina. Indolor e potência ilimitada!
................................................................................................................................................"
Aí surgiu o carvão. "Mas esse progresso ficava privilégio
dos países dotados de grandes reservas de carvão
- Inglaterra, Estados Unidos, França, Alemanha. Tais países
tornaram-se os mais ricos e poderosos, os astros de primeira grandeza
num mundo de satélites, porque a soma de energia mecânica
que podiam desenvolver com a queima do carvão viera aumentar tremendamente
a eficiência do homem politicamente chamado de inglês, americano,
francês, alemão. O mais rico em carbono fóssil, a
Inglaterra, apesar duma simples ilha safar, domina o mundo. Invade todos
os continentes, pega a Austrália, as Índias, a melhor parte
da África e quantas terras lhe convêm; 400 milhões
de homens de todas as cores submetem-se ao punhado de ilhéus que
tinham ilimitadas quantidades de carvão para queimar.
Mas um dia o coronel Drake fura a terra na Pennsylvania e faz jorrar um
líquido negro chamado petróleo. O mundo vai mudar. O equilíbrio
das forças não será mais regulado pelas quantidades
de carvão existentes no subsolo dum país - e sim pela quantidade
de petróleo que esse país dispuser.
..........................................................................................................................................."
Com o fim iminente da era do petróleo, este astuto bípede
continua a escrever sua história através dos novos tipos
de energia (agora são chamadas renováveis), com disputas
técnicas, políticas
e econômicas e no futuro, com certeza, novas guerras, com o objetivo
de dominação do mundo.
O nome deste advogado era Monteiro Lobato.
Fonte: LOBATO,
Monteiro. O escândalo
do petróleo e ferro. São Paulo: Editora
Brasiliense, 1964.p.24-27
Paulo Gonçalves dos Santos
Engenheiro de planejamento

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